{"id":86,"date":"2019-11-29T19:22:02","date_gmt":"2019-11-29T19:22:02","guid":{"rendered":"http:\/\/10.11.0.143\/?p=86"},"modified":"2019-12-04T12:49:23","modified_gmt":"2019-12-04T12:49:23","slug":"desenhando-o-sitio-do-picapau-amarelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blij.bn.gov.br\/index.php\/2019\/11\/29\/desenhando-o-sitio-do-picapau-amarelo\/","title":{"rendered":"Desenhando o S\u00edtio do Picapau Amarelo"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align:left\">por<strong> Rui Oliveira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Monteiro Lobato \u2014 As primeiras leituras e as primeiras imagens. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Meu\npai teve sempre o h\u00e1bito de comprar livros para os filhos, apesar de todas as\nsuas dificuldades econ\u00f4micas em manter a fam\u00edlia.&nbsp; Eu me lembro de ler Lobato ap\u00f3s a leitura de\nmeus irm\u00e3os \u2014 eu era o ca\u00e7ula e os livros chegavam em minhas m\u00e3os ap\u00f3s certo tempo.\n<\/p>\n\n\n\n<p>Meu\npai sempre escrevia no frontisp\u00edcio: \u201cEste livro pertence aos irm\u00e3os Oliveira\u201d.\nSendo assim, Monteiro Lobato fez parte do imagin\u00e1rio de nossa inf\u00e2ncia, assim\ncomo as ilustra\u00e7\u00f5es de seus livros ficaram eternizadas em minha mem\u00f3ria. E,\npela primeira vez, confesso: eu tinha um ing\u00eanuo e imposs\u00edvel afeto pela\nNarizinho. Eu a achava bonita com sua franjinha e seu cabelo Chanel. <\/p>\n\n\n\n<p>A\nminha gera\u00e7\u00e3o leu Lobato com os tra\u00e7os do grande ilustrador paulista Belmonte\n(1896-1947). Al\u00e9m das lustra\u00e7\u00f5es dos livros de Lobato, dois outros livros\ndespertaram o meu interesse pela imagem narrativa, e pelo sonho de um menino do\nsub\u00farbio do Rio de tornar-se um dia desenhista. Foram as obras \u201cCazuza\u201d de\nViriato Correia, ilustrado por Renato Silva (1904-1981), e as bel\u00edssimas\nilustra\u00e7\u00f5es em bico de pena do extraordin\u00e1rio \u00c1lvaro Marins (Seth) (1891-1949),\nem seu monumental \u00e1lbum \u201cO Brasil pela Imagem\u201d que me al\u00e7aram a tal sonho.&nbsp; Na minha mais long\u00ednqua mem\u00f3ria, me vejo\nsempre com o l\u00e1pis e o papel na m\u00e3o desenhando. At\u00e9 hoje esta paix\u00e3o permanece\ne se renova a cada dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto ao\nmeu trabalho como diretor de arte na novela S\u00edtio do Picapau Amarelo, para um\nrec\u00e9m formado e rec\u00e9m chegado ao pa\u00eds, foi um grande desafio e uma importante\nexperi\u00eancia profissional que me abriu portas futuras ao meu trabalho. Quando\nfui chamado para participar do projeto, em 1976, eu tinha na verdade uma\npequena experi\u00eancia em videografismo.&nbsp;\nHavia feito na pr\u00f3pria TV-Globo as aberturas das novelas \u201cPluft, o Fantasminha\u201d,\n\u201cHelena\u201d e \u201cA Moreninha\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>A minha forma\u00e7\u00e3o adveio do design, da ilustra\u00e7\u00e3o e do cinema de anima\u00e7\u00e3o. Estas tr\u00eas linguagens pl\u00e1sticas foram a base inicial para realizar todo o meu trabalho na novela. Sempre achei, e continuo pensando desta forma, que o desenho \u00e9 um fundamento para o criador de imagens que contam hist\u00f3rias. Aproveito esta oportunidade para agradecer esta iniciativa da Biblioteca Nacional em expor algumas artes que se fixaram no imagin\u00e1rio de gera\u00e7\u00f5es que assistiram \u00e0 novela.&nbsp; Talvez essa seja a grande fun\u00e7\u00e3o de um artista que desenha para crian\u00e7as e adolescentes: criar a futura mem\u00f3ria feliz das pessoas. <\/p>\n\n\n\n<h3><strong><a href=\"http:\/\/bndigital.bn.gov.br\/exposicoes\/monteiro-lobato-o-homem-os-livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Visite a exposi\u00e7\u00e3o virtual: Monteiro Lobato - o homem, os livros. (opens in a new tab)\">Visite a exposi\u00e7\u00e3o virtual: Monteiro Lobato &#8211; o homem, os livros.<\/a><\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><strong>Aberturas\ne Vinhetas <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Estes\ns\u00e3o os desenhos originais para o story-board da primeira abertura da novela em\n1977. Considerando as carater\u00edsticas espec\u00edficas de uma novela para crian\u00e7as,\nas aberturas e vinhetas tinham a fun\u00e7\u00e3o importante de n\u00e3o apenas apresentar os\nletreiros, mas identificar, principalmente as vinhetas,&nbsp; cada hist\u00f3ria dentro da novela. Al\u00e9m de criar\numa atmosfera m\u00e1gica de empatia junto \u00e0s crian\u00e7as.&nbsp; Com o tempo, estes visuais foram se tornando\na pr\u00f3pria mem\u00f3ria da novela e de suas diversas aventuras.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p>Procurando defini-lo conceitual e\nplasticamente, no meu trabalho na dire\u00e7\u00e3o de arte da novela procurei sempre\nunir a tradi\u00e7\u00e3o do artesanato da pintura e da ilustra\u00e7\u00e3o \u00e0s modernas\ntecnologias, inclusive \u00e0 computa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica. Sempre com o objetivo de criar uma\nimagem mais humana e natural. Tenho certeza de que o encontro entre estas duas\nlinguagens, que em absoluto n\u00e3o s\u00e3o incompat\u00edveis, foi um dos motivos de, at\u00e9\nhoje, as pessoas, na \u00e9poca crian\u00e7as, se lembrarem dos desenhos e das aberturas\nda novela. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Visualizando a Em\u00edlia pra&nbsp; TV.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para\na cria\u00e7\u00e3o dos bonecos e dos principais figurinos da novela, acredito que a\nmaior dificuldade que tive, bem diferente dos ilustradores cl\u00e1ssicos de Lobato,\nfoi dar forma aos personagens em tr\u00eas dimens\u00f5es. Aquilo que resultava bem nos\ndesenhos de Voltolino, Belmonte, Villin, J.U. Campos e Andre Le Blanc n\u00e3o\nreagiam bem como figurinos para serem utilizados por atores. Aqui, os\npersonagens seriam visto de todos os \u00e2ngulos, sempre lembrando que est\u00e1vamos\nfazendo um espet\u00e1culo para a TV, com suas normas e conven\u00e7\u00f5es. Por outro lado,\neu n\u00e3o poderia romper radicalmente com as j\u00e1 tradicionais imagens quase\ncristalizadas por meio de gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es de leitores. O primeiro problema,\nquando comecei a desenhar a Em\u00edlia, foi a sua tradicional e desalinhada\ncabeleira preta.&nbsp; Nas ilustra\u00e7\u00f5es, era\nrealmente engra\u00e7ada, mas resultaria na TV, com a movimenta\u00e7\u00e3o da atriz, uma\nimagem feia e meio fantasmag\u00f3rica. Utilizei ent\u00e3o, ap\u00f3s\nmuitos desenhos e testes, uma cabeleira de recortes de panos irregulares, como\nse fosse uma bruxinha. As cores eram de tons quentes de c\u00e1dmio. A paleta de\ncores que fiz para todo o figurino da Em\u00edlia era devido aos efeitos especiais\nobtidos no&nbsp; Chroma key. A cabe\u00e7a da\npersonagem ficou alegre, os cabelos se movimentavam \u2014 tudo isso criou uma\ndin\u00e2mica que reagiu plasticamente muito bem no v\u00eddeo.&nbsp;Este g\u00eanero de\nfigurino \u00e9 uma escultura em movimento, uma verdadeira arte cin\u00e9tica. &nbsp;Gostaria tamb\u00e9m de citar que os outros\npersonagens da novela, e os cen\u00e1rios, eram do extraordin\u00e1rio e saudoso Arlindo\nRodrigues.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Visualizando Visconde de Sabugosa para a TV.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O bom figurino de um personagem fant\u00e1stico \u00e9 quando ele possui uma verossimilhan\u00e7a com o real, isto n\u00e3o significa ser realista. A&nbsp; crian\u00e7a aceita e se identifica com o personagem bizarro se ele for cr\u00edvel&nbsp; ao seu olhar, \u00e0 sua imagina\u00e7\u00e3o e ao seu cora\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 caso do Visconde de Sabugosa. Sem d\u00favida, do ponto de vista de sua confec\u00e7\u00e3o, pelas m\u00e3os de Tia Anast\u00e1cia, \u00e9 um dos mais fant\u00e1sticos personagens criados por Lobato. Mas a quest\u00e3o central era a mesma: ele \u00e9 interessante como imagem ilustrada nos livros, mas como ele seria vestido por um ator? Poder andar, gesticular<strong>, <\/strong>correr \u2014 o figurino \u00e9 a vers\u00e3o f\u00edsica e silenciosa da alma de um personagem.  N\u00e3o acredito, sinceramente, em cria\u00e7\u00e3o sem pesquisa. Lembro que, naquela \u00e9poca, eu estudei muito os personagens de animais com roupas humanas desenhadas por Grandville (1803-1847). Mas novamente o bin\u00f4mio mem\u00f3ria e imagina\u00e7\u00e3o funcionou.&nbsp; Lembrei de um livro que li quando crian\u00e7a e que muito me impressionou: O Bar\u00e3o de Munchhausen. O desenho de Gustave Dor\u00e9 (1832-1883) para o Bar\u00e3o se eternizou em minha mem\u00f3ria.&nbsp; Todas estas conflu\u00eancias resultaram na forma final que encontrei para o Visconde de Sabugosa. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>As fronteiras movedi\u00e7as entre a\ntranscri\u00e7\u00e3o e a releitura.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Diante\ndas complexas quest\u00f5es que envolvem a adapta\u00e7\u00e3o de textos liter\u00e1rios para TV,\nacho oportuno refletirmos sobre os limites entre a <em>transcri\u00e7\u00e3o <\/em>e a <em>livre\nreleitura<\/em> de um texto. A transcri\u00e7\u00e3o existiu sempre e \u00e9 leg\u00edtima. O\ncompositor h\u00fangaro Franz Litsz fez transcri\u00e7\u00f5es para piano de pe\u00e7as de Mozart.\nO cineasta brasileiro transcreveu para cinema a obra prima de Graciliano Ramos\n\u201cVidas Secas\u201d, com absoluta fidelidade e toda aspereza e concis\u00e3o da literatura\ndo grande escritor. <\/p>\n\n\n\n<p>Com\nrela\u00e7\u00e3o \u00e0 releitura, a primeira d\u00favida \u00e9 a seguinte: ser\u00e1 que obras universais,\nrepresentativas da eterna alma humana, precisam de adapta\u00e7\u00f5es aos \u201cnovos tempos\u201d\npara se tornarem compreens\u00edveis ao \u201cleitor jovem\u201d? No fundo, assim vejo, esta \u00e9\numa atitude discriminat\u00f3ria \u00e0 intelig\u00eancia das crian\u00e7as e do jovem. Jamais me\npassou pela cabe\u00e7a \u201cmodernizar\u201d qualquer personagem de Lobato para torn\u00e1-lo\npalat\u00e1vel em nossos dias. Ser\u00e1 que esta par\u00e1frase, \u2014 quer dizer: transformar\nalgo supostamente incompreens\u00edvel em linguagem para que todos possam entender \u2014\nn\u00e3o esconde uma vis\u00e3o conformista e conservadora do indiv\u00edduo e da pr\u00f3pria\narte? <\/p>\n\n\n\n<p>Pessoalmente,\nn\u00e3o tenho d\u00favidas de que este g\u00eanero de facilita\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, \u2014 que sempre se\napresenta com a justificativa: \u201cisto a crian\u00e7a n\u00e3o vai entender, aquilo o povo\nn\u00e3o compreende\u201d \u2014 na verdade, \u00e9 uma fal\u00e1cia com verniz de posi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica.\nO que realmente est\u00e1 por tr\u00e1s de todo este discurso altru\u00edsta \u00e9 a autocensura,\n\u00e9 a inten\u00e7\u00e3o de manter as pessoas onde elas est\u00e3o, n\u00e3o elev\u00e1-las, no fundo \u00e9 o\ndesejo conservador de vender mais facilmente a obra e obter com isso um lucro\nmais r\u00e1pido.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p>Realmente\na novela S\u00edtio do Picapau Amarelo popularizou a obra de Lobato, mas n\u00e3o a\ndemocratizou. Tamb\u00e9m n\u00e3o era essa a sua fun\u00e7\u00e3o. O conceito de releitura aparece\nimediatamente quando obras significativas e c\u00e9lebres caem no dom\u00ednio p\u00fablico.\nComo foi o caso de O Pequeno Pr\u00edncipe de Saint-Exup\u00e9ry, e agora a obra de\nMonteiro Lobato. Cair em dom\u00ednio p\u00fablico n\u00e3o significa que a ruptura com a\ntirania, e com o ganha-p\u00e3o de long\u00ednquos parentes ou amigos, vai trazer \u00e0 obra\nde Monteiro Lobato uma nova qualidade e novas releituras em ilustra\u00e7\u00e3o, por\nexemplo. Usar linguagens contempor\u00e2neas n\u00e3o representa necessariamente\nmodernidade, um novo olhar gr\u00e1fico sobre os textos de Lobato. <\/p>\n\n\n\n<p>A\nvers\u00e3o em quadrinhos do S\u00edtio, que poderia anunciar uma democratiza\u00e7\u00e3o do\nuniverso de Monteiro Lobato, realmente n\u00e3o se realizou. Em termos gr\u00e1ficos, por\nexemplo, os quadrinhos adotaram os estere\u00f3tipos mais conservadores das\nhistorietas para crian\u00e7as. Uma vis\u00edvel contradi\u00e7\u00e3o com os conte\u00fados originais\ndo texto e, principalmente, com as ilustra\u00e7\u00f5es que os caracterizaram durante\nanos. <\/p>\n\n\n\n<p>Tudo se torna ainda mais grave quando este grafismo dos quadrinhos do S\u00edtio do Picapau Amarelo passou a \u201cilustrar\u201d os livros do escritor. Primeiramente, um conflito de g\u00eaneros: quadrinhos e ilustra\u00e7\u00e3o. Qualquer g\u00eanero possui as suas conven\u00e7\u00f5es, o seu modo de ser \u2014 os temas alegres e amorosos das operetas permitem e solicitam um canto l\u00edrico totalmente diferente de uma tr\u00e1gica e densa \u00f3pera de Puccini. As transl\u00facidas aquarelas de John Sargent s\u00e3o opostas aos empastes a \u00f3leo das pinturas de Lucian Freud. N\u00e3o se tratam de diferentes per\u00edodos da arte, ou quest\u00e3o de estilo ou meio pl\u00e1stico, o que temos na verdade s\u00e3o conven\u00e7\u00f5es diversas, inerentes a qualquer tipo de linguagem. A conven\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa estere\u00f3tipo ou conformismo.  Achei oportuno abordar este assunto nesta exposi\u00e7\u00e3o que celebra a obra deste nosso grande escritor. Temos que admitir, e assumir, que a literatura e a alma de Lobato continuam ressentindo de um corpo, ou de v\u00e1rios corpos, em outras palavras, de imagens ilustradas por artistas verdadeiros. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quindim, Rabic\u00f3 e Dr. Caramujo. &nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Gostaria\nde aproveitar este momento, em que estamos apresentando os desenhos\npreparat\u00f3rios para a cria\u00e7\u00e3o dos bonecos do rinoceronte Quindim, do porquinho\nRabic\u00f3 e do Dr, Caramujo, para mencionar uma quest\u00e3o conceitual muito\nimportante ocorrida com a novela, em seu per\u00edodo inicial. <\/p>\n\n\n\n<p>Em 1976, quando eu ainda estava esbo\u00e7ando o\nestilo da abertura, os figurinos e os bonecos, a Tv-Globo me enviou para Los\nAngeles, para &nbsp;trabalhar na Croft\nCorporation. Esta f\u00e1brica produzia e criava os bonecos do Muppet Show e da\nDisneyl\u00e2ndia tamb\u00e9m. Foi um grande aprendizado que tive. Uma experi\u00eancia\nriqu\u00edssima entender e representar o personagem em tr\u00eas dimens\u00f5es, e at\u00e9 mesmo a\npr\u00f3pria ess\u00eancia do espet\u00e1culo televiso para crian\u00e7as. Vale lembrar que naquele\nmomento, a TV-Globo pensava no S\u00edtio basicamente em grava\u00e7\u00f5es internas, em\nest\u00fadio, tal como haviam feito, com muito sucesso, o Vila S\u00e9samo. Era,\nportanto, esta a dire\u00e7\u00e3o em que eu trabalhava os meus projetos. <\/p>\n\n\n\n<p>Pouco tempo depois, quando os bonecos j\u00e1\nestavam prontos, a emissora foi gradualmente transferindo as grava\u00e7\u00f5es para o\nexterior \u2014 na verdade uma grande solu\u00e7\u00e3o. O cen\u00e1rio do S\u00edtio\nconstru\u00eddo em Pedra de Guaratiba pelo grande cen\u00f3grafo Arlindo Rodrigues se\ntransformou no \u00c9den perdido. Era a natureza que as crian\u00e7as urbanas\ndesconheciam, al\u00e9m de um profundo apelo ao seu imagin\u00e1rio e uma saudade de algo\nque elas n\u00e3o viveram. A luz do sol mudava toda a concep\u00e7\u00e3o de figurinos, e\nbonecos,&nbsp; no que se refere \u00e0s quest\u00f5es da\nforma, cor, materiais, mobilidade e estrutura. Em s\u00edntese, todo o chamado\n\u201cethos\u201d do personagem, que \u00e9 a sua maneira de ser. <\/p>\n\n\n\n<p>Os figurinos tinham que ser bem arejados,\nleves, resistentes \u00e0 passagem por galhos e plantas Lembro que &#8211; quando desenhei\no boneco do personagem&nbsp; \u201cMajor agarra e\nn\u00e3o larga mais\u201d, que era um sapo \u2014 utilizei pequenos e\nsilenciosos ventiladores dentro do boneco para refrigerar o ator devido ao\nintenso calor de Guaratiba.<\/p>\n\n\n\n<p>Sinceramente, n\u00e3o lamentei ter que come\u00e7ar\ntudo de novo. O que&nbsp;&nbsp; aprendi na Kroft\npude adaptar \u00e0s circunst\u00e2ncias da grava\u00e7\u00e3o, ao ar livre. Foi poss\u00edvel, com esta\nexperi\u00eancia, criar outros bonecos para a novela, em especial aquele que\nconsidero o melhor e o mais simb\u00f3lico deles: a Cuca.&nbsp; Que at\u00e9 os nossos dias permanece sendo usada\nde diversas maneiras, algumas absurdas e prosaicas.&nbsp; A cria\u00e7\u00e3o deste emblem\u00e1tico personagem \u00e9 o&nbsp; tema do nosso pr\u00f3ximo painel.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Cuca e seu processo de cria\u00e7\u00e3o. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que\ntodos os figurinos que desenhei num primeiro momento \u2014 os da Em\u00edlia, Visconde\nde Sabugosa, Pr\u00edncipe Escamado \u2014 afora os outros bonecos que criei para a\nnovela, o que teve maior impacto, a maior empatia junto \u00e0s crian\u00e7as, sem d\u00favida\nfoi a Cuca. Reproduzo alguns estudos que fiz \u00e0 \u00e9poca para cria\u00e7\u00e3o deste\ncarism\u00e1tico personagem, e que, at\u00e9 hoje, permanece revivido de todas as maneiras,\npor vezes at\u00e9 com soutien! \u2014 algo que jamais eu desenharia. A Cuca seria uma\npersonagem para uma aventura apenas, mas, pelo seu grande sucesso, permaneceu e\nfoi desenvolvida em outras aventuras. Em Lobato, ela aparece somente no livro O\nSaci. <\/p>\n\n\n\n<p>Gostaria,\npela primeira vez, de relatar ao grande p\u00fablico, passados tantos anos, alguns\nconceitos que me orientaram em sua cria\u00e7\u00e3o. Todo personagem, todo figurino tem\nque possuir, conforme j\u00e1 disse antes, um ethos, em outras palavras, uma\npersonalidade. Uma origem hist\u00f3rica, social, cultural e at\u00e9 mesmo mitol\u00f3gica. O\nator \u00e9, e ser\u00e1 sempre, o sujeito, mas o figurino n\u00e3o \u00e9 apenas um simples\nobjeto. &nbsp;A primeira compreens\u00e3o do interior de um personagem \u00e9 por meio de\nseu aspecto pl\u00e1stico \u2014 a constru\u00e7\u00e3o de seus significados vai ocorrendo ao longo\ndo texto que, de certa forma, \u00e9 uma extens\u00e3o de seu figurino. E como\nfazer um figurino de sucesso?&nbsp; N\u00e3o\nexistem regras. Existem caminhos, n\u00e3o atalhos. A palavra m\u00e1gica, caso ela\nexista, s\u00e3o o trabalho na prancheta e a pesquisa. <\/p>\n\n\n\n<p>O aspecto\ncrom\u00e1tico da Cuca \u00e9 um contraponto de cores quentes e frias, al\u00e9m do vermelho e\nsua complementar verde,&nbsp; como \u00e9 caso da\nregi\u00e3o peitoral do personagem. Acredito, sinceramente, que um dos motivos da\ngrande atra\u00e7\u00e3o do personagem no v\u00eddeo foi o uso do vermelho como cor regente, e\nde sua complementar o verde. Cores altamente simb\u00f3licas. O vermelho do sangue\nhumano e o verde da seiva das plantas. O encontro destas duas cores foi muito\nutilizado pelos pintores italianos, antes do pr\u00e9-Renascimento. Eles sabiam\nmuito bem usar o dualismo simb\u00f3lico destas duas cores fundamentais. Temos\nsempre que ter consci\u00eancia de que n\u00e3o trabalhamos unicamente com os aspectos\nf\u00edsicos das cores, mas com os seus simbolismos, seus contrastes, seu passado e\ncultura, sua rela\u00e7\u00e3o com as outras cores e, principalmente, com a sua\ntemperatura: cores quentes e cores frias, por exemplo \u2014 existe uma metaf\u00edsica das cores. A\nhist\u00f3ria da pintura est\u00e1 repleta de grandes exemplos disso. <\/p>\n\n\n\n<p>O figurino\nda Cuca j\u00e1 foi projetado para o ar livre, considerando a sua rela\u00e7\u00e3o com o\nambiente natural e com os cen\u00e1rios constru\u00eddos. Era preciso criar espa\u00e7o no\nboneco para a plena desenvoltura e comodidade do ator. O ator \u00e9 o fundamento.\nNenhum personagem, nenhum boneco sobrevive, por melhor que ele tenha sido\ndesenhado e constru\u00eddo, sem a presen\u00e7a e o talento do ator. Certamente este foi\num dos componentes do sucesso da Cuca. A atriz, Dorinha Duval, era\nextraordin\u00e1ria na sua maneira de agir e falar. Junto com o figurino, ela criava\numa simbiose, um \u201cphysique du r\u00f4le\u201d perfeito. O figurino n\u00e3o \u00e9 uma obra acabada\nem si mesma \u2014 ele est\u00e1 a servi\u00e7o do ator; jamais o contr\u00e1rio. O figurino narra\na hist\u00f3ria em sil\u00eancio. Resumindo: a alma de um figurino ser\u00e1 sempre o ator. <\/p>\n\n\n\n<p>Gostaria de\ncitar o nome do, infelizmente j\u00e1 falecido, Eloy Machado. Ele foi o costureiro\nque construiu a Cuca. Estive em sua casa v\u00e1rias vezes acompanhando a montagem\ndo boneco todo feito em espuma, feltro e fibra de vidro. O cabelo era de rabo\nde cavalo leg\u00edtimo. Ele construiu outros personagens que desenhei. N\u00e3o havia\ndificuldade t\u00e9cnica na minha cria\u00e7\u00e3o para a qual ele n\u00e3o encontrasse uma\nsolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda como\nestudante em Budapeste, vi num livro escrito por Alexander Puskin e ilustrado\npor Ivan Bilibin, grande mestre russo da ilustra\u00e7\u00e3o, uma representa\u00e7\u00e3o da bruxa\nBaba Yaga. Fiquei bastante impressionado com a concep\u00e7\u00e3o do ilustrador,\nprincipalmente com os cabelos esvoa\u00e7antes da bruxa. Todos n\u00f3s conhecemos a\nfor\u00e7a e o simbolismo dos cabelos.&nbsp; A\ncrian\u00e7a convive bem, diferente do adulto, com o universo visual do horror e do\nbizarro. Outro aspecto importante na concep\u00e7\u00e3o visual da Cuca, e talvez isto\ntamb\u00e9m explique o seu fasc\u00ednio com as crian\u00e7as, se deve ao fato de o jacar\u00e9\nlembrar muito um animal pr\u00e9-hist\u00f3rico. No caso, um dos mais&nbsp; tem\u00edveis: o\nTiranossauro. Eu n\u00e3o poderia perder este detalhe de liga\u00e7\u00e3o com o imagin\u00e1rio\ninfantil. Os esbo\u00e7os que fiz \u00e0 \u00e9poca, e que aqui est\u00e3o expostos, demonstram bem\nesta origem pr\u00e9- hist\u00f3rica da personagem. &nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Pr\u00edncipe Escamado <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para\ndesenhar o Pr\u00edncipe Escamado, quis fazer algo pr\u00f3ximo de um her\u00f3i de\nquadrinhos. Lembrei de personagens de minha inf\u00e2ncia: o filme O Monstro da\nLagoa Negra, Pr\u00edncipe Submarino e tantos outros. Voc\u00ea n\u00e3o representa a\napar\u00eancia, mas sim a ess\u00eancia dos personagens. O figurino \u00e9 um personagem que\nfala sem ter voz. O Pr\u00edncipe Escamado era algo que vinha do Reino das \u00c1guas\nClaras, portanto, um pr\u00edncipe com escamas e barbatanas.&nbsp; A sua cor regente seria o verde-amarelo at\u00e9 o\nverde azul, o turquesa. Muitos contos de fadas representam pr\u00edncipes e\nprincesas&nbsp; que habitam no mar, e por\nalgum motivo eles v\u00eam at\u00e9 a terra. Todo este imagin\u00e1rio visual eu n\u00e3o poderia\ndeixar de pesquisar e desenhar.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p><strong>O\nCasamento de Narizinho com o Pr\u00edncipe Escamado, o cl\u00e1ssico Noivo Animal em\nMonteiro Lobato. <\/strong><strong>&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9\nonde pude saber, penso que seja esta uma das primeiras representa\u00e7\u00f5es em nossa\nliteratura para crian\u00e7as, escrita por um brasileiro, que nos apresenta de forma\nt\u00e3o maravilhosa um dos momentos mais emblem\u00e1ticos e misteriosos dos contos de\nfadas: o noivo animal. Como hist\u00f3rias cl\u00e1ssicas e exemplares, neste segmento,\nportanto referentes aos chamados ritos da inicia\u00e7\u00e3o e do autoconhecimento,\nn\u00f3s&nbsp; temos o A Bela e a Fera, O Rei Sapo\ne muitos outros. Realizei esta ilustra\u00e7\u00e3o para a mostra As Vis\u00f5es da Em\u00edlia. O\nolhar de 7 ilustradores brasileiros \u2013 Centro Cultural Banco do Brasil \u2013 Foyer \u2013\n1996. Fui o organizador e o curador daquela exposi\u00e7\u00e3o. Sobre o tema t\u00e3o\nimportante dos s\u00edmbolos na ilustra\u00e7\u00e3o de livros para crian\u00e7as e jovens \u2014 e que\nesta ilustra\u00e7\u00e3o do casamento de Narizinho com o Pr\u00edncipe Escamado \u00e9 um belo\nexemplo \u2014 eu\ngostaria de fazer algumas reflex\u00f5es finais sobre o s\u00edmbolo e a arte de\nilustrar.<strong> <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu diria incialmente que<strong> i<\/strong>lustrar \u00e9 supor. Ver tamb\u00e9m \u00e9 uma\nsuposi\u00e7\u00e3o. Um ato essencialmente pessoal, uma intransfer\u00edvel viv\u00eancia. Em\nqualquer que seja a imagem, o que vemos realmente s\u00e3o os nossos desejos. Os\nnossos s\u00edmbolos pessoais. &nbsp;Algo muito\nal\u00e9m, e bem diferente do devaneio original do artista que realizou a\nilustra\u00e7\u00e3o. Vemos o nosso anseio. A forma por n\u00f3s desejada, a imagem que se\norigina em nossas internas voli\u00e7\u00f5es. O que constru\u00edmos diante dos olhos \u00e9 a\nnossa expectativa. Ver \u00e9 tirar o disfarce desta ansiedade. <\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, a ilustra\u00e7\u00e3o jamais\nser\u00e1 a vis\u00e3o unilateral de um artista ou de um texto. Em termos simb\u00f3licos, ela\n\u00e9 uma Hidra com infinitas cabe\u00e7as de serpentes, e destas, sem parar, outras\nnascem sucessivamente. Isto significa que, quanto mais plural em suas\nsingularidades, quanto mais indagativa for a ilustra\u00e7\u00e3o, mais ela desperta\nnarrativas ao olhar do pequeno e grande leitor. Certamente, a bela ilustra\u00e7\u00e3o \u00e9\naquela que revela e estimula as palavras, e as imagens interiores e anteriores\nde quem as v\u00ea.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p>Como se configura simbolicamente a imagem que vemos? Podemos dizer que ela \u00e9 uma esfinge. Um ser geralmente h\u00edbrido que devora todos aqueles que n\u00e3o elucidam seus segredos.&nbsp; E como poder\u00edamos situar a ilustra\u00e7\u00e3o neste caso?  Ela \u00e9, da mesma forma, uma esfinge a partir de um texto. Onde s\u00f3 n\u00f3s possu\u00edmos a chave para o desnudamento de seu mist\u00e9rio. Mesmo n\u00e3o sendo a ilustra\u00e7\u00e3o a imagem similar e espelhar do texto, apesar disso, podemos nos referenciar&nbsp; \u00e0 Alice, ou seja,&nbsp; n\u00e3o vemos a imagem por meio do espelho, e sim, atrav\u00e9s do espelho. Ver \u00e9 imergir em nossos s\u00edmbolos pessoais <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rui de Oliveira &#8211; Biografia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nasci no Rio de Janeiro, no bairro de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o. Estudei\nPintura no Museu de Arte Moderna, Artes Gr\u00e1ficas na Escola de Belas Artes da\nUniversidade Federal do Rio de Janeiro e, durante seis anos, Ilustra\u00e7\u00e3o e\ndesign &nbsp;na atual Moholy-Nagy University\nof Art and Design, em Budapeste. Estudei tamb\u00e9m Cinema de Anima\u00e7\u00e3o no est\u00fadio\nh\u00fangaro Pann\u00f3nia Film. <\/p>\n\n\n\n<p>Doutorei-me em Artes Visuais pela Escola de\nComunica\u00e7\u00f5es e Artes, da Universidade de S\u00e3o Paulo. Fui diretor de arte da tv\nGlobo e da tv Educativa, atual tv Brasil. Entre as principais aberturas e vinhetas,\ndestacaria as que desenhei para a primeira vers\u00e3o da novela S\u00edtio do Picapau\nAmarelo e a reformula\u00e7\u00e3o do videografismo da TVE. <\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 ilustrei 142 &nbsp;livros ( Setembro de 2019). Trabalhei para as\nprincipais editoras de literatura infantojuvenil brasileiras. Realizei seis\ndesenhos animados e recebi alguns pr\u00eamios como animador e ilustrador. Entre\neles, quatro pr\u00eamios Jabuti de Ilustra\u00e7\u00e3o. Fui indicado pela Funda\u00e7\u00e3o Nacional\ndo Livro Infantil e Juvenil \u2013 FNLIJ &#8211; &nbsp;ao\nPr\u00eamio Hans Christian Andersen \u2013 IBBY &#8211; &nbsp;na Categoria Ilustra\u00e7\u00e3o, em 2006 e 2008. Em 2006, recebi da Academia\nBrasileira de Letras com o livro Cartas Lunares, publicado em 2015 pela Cia das\nLetrinhas, o pr\u00eamio de melhor texto para livros infantis. &nbsp;\n\nSou professor aposentado da Universidade Federal\ndo Rio de Janeiro, onde lecionei durante trinta anos no curso de Comunica\u00e7\u00e3o\nVisual e Design da Escola de Belas Artes. Mais detalhes sobre o meu trabalho, voc\u00eas podem\nver acessando o site: www.ruideoliveira.com.br e o blog: <br><a href=\"http:\/\/ruideoliveira.blogspot.com\">http:\/\/ruideoliveira.blogspot.com<\/a>.\n\u2013 Perfil no Facebook.\n\n\n\n<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Rui Oliveira Monteiro Lobato \u2014 As primeiras leituras e as primeiras imagens. 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